A pequena marioneta

A pequena marioneta estava sentada no fundo do armário. Inerte, sem vida, desprovida de sentido. O seu corpo de madeira antes envernizado todos os anos, não era agora mais do que um hotel de caruncho, um ninho de ácaros. Os fios que antes a moviam já lá não estavam, as mãos que a faziam viver já não viviam.
A marioneta vivia com um sorriso estampado na cara, um sorriso pintado já à muito tempo, mesmo antes de se poder mexer. O sorriso de quem o pintou, já não existia. E o sorriso da marioneta era falso, tão falso que parecia descascar-se de dia para dia.
Os grandes e abertos olhos da marioneta só viam as portas do armário. Ninguém diria que já tinham visto mais de meio mundo, ninguém diria que já tinha vivido mais do que meio mundo. Os olhos daqueles que tinham visto o mundo com ela já não viam mais.
Tinha passado de mão em mãos para ser apreciada, tinha passado de pai para filho para ser controlada. E um dia deixou de o ser.

Um petiz não a quis.

Luxúria(?) / Lust(?)

Eu tocava-te se pudesse. Deixaria os meus dedos passearem-se pela tua pele nua, provaria o sabor do teu corpo, envolver-me-ia no teu odor. Se ao menos não fosse tão proibido. Unir-nos-íamos, criaríamos, seriamos um. As minhas mãos no teu corpo, as tuas mãos nas minhas.

Mas não podemos. Se ao menos te pudesse tocar saberia que poderia voltar a ser uno uma vez mais. Os teus lábios vermelhos convidam um beijo, o teu corpo implora invasão. Os meus lábios querem, o meu corpo deseja.

Luxúria ou Amor?

Os nossos corpos estão separados, as mentes não.

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ou, em inglês, como escrevi originalmente:
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I'd touch you if I could. I'd let my fingers wander through your bare skin, I'd taste your body, I'd get your scent. If only it wasn't so forbidden. We would unite, we would create, we would be one. My hands in your body, your hands in mine.

But we can't. If only I could touch you, I'd know I could be whole once more. Your red lips invite a kiss, your body beseeches invasion. My lips crave, my body desires.

Lust or Love?

Our bodies are apart, our minds are not.

Ai a infância... (1)

Era uma vez um cuco


Lembro de cantar isto no autocaro das férias na praia (quando era mais petiz). E de a cantar no autocarro, já mais grandinho, com umas colegas, algumas delas também elas blogueiras, e de o senhor do autocarro começar a por o volume do rádio mais alto... (Não digo o nome das pessoas para não ferir susceptibilidades)


Eu gosto de Sopa


Digam lá que isto não tem ganda batida! Isto sim, é O ROCK, qual xutos qual quê!?


Ginasticar


Eu adorava esta música... :(


Sinto-me tão idoso, agora...

Madrugada...

Madrugada. O Sol não quer nascer, o corpo não quer dormir, a mente não descansa. Revolvem-se os lençóis, viram-se as almofadas. Perdem-se segundos inúteis a ajeitar a cabeça. "Hoje já não dormes mais", pensas em vão. Resolves levantar-te. Calças os chinelos e segues até à casa de banho. Chegas à sanita, fazes o que tens a fazer e voltas-te para lavar as mãos. Ainda meio ensonado abres a torneira da água fria. O fresco da água a bater nas mão ainda quentes da cama é uma das coisas que mais detestas. Fazes uma concha com as mãos e levas a água à cara. Sentes a barba a despontar, sentes os dias a passar. Olhas em frente, os teus piores inimigos estão lá: o espelho e o teu reflexo. Notas as pequenas rugas a assomar-se no canto dos olhos, vês as entradas no cabelo a crescer. Olhas-te nos olhos. Não vês ninguém. Nem tu, nem ela, nem eles. Não sentes os olhos brilhar, não sentes o mundo girar. "O que foi que te aconteceu?" Perdeste-te nas malhas da vida. Viste o teu destino esmorecer, viste o teu fulgor perecer. A rotina instalou-se.

Desvias o olhar, não suportas a maneira como te olhas de volta. O barulho dos chinelos nos tapetes do corredor irrita-te. A madrugada irrita-te. Vendo bem, tudo te irrita. A vida irrita-te. Passas pela cozinha. Abres a porta do frigorífico. O frio é mais que bem vindo nesta noite quente. A pequenita luz do frigorífico tenta timidamente iluminar a divisão. Abres o congelador e tiras uma embalagem qualquer. Gelado. Olhas para o rótulo: "Menta". Devolve-lo ao seu lugar e tentas outra vez: "Sorvete de Limão". Bingo. Sentas-te no balcão de mármore e alcanças uma colher de sobremesa no escorredor da louça. Deixas a porta do frigorífico aberta. Abres a embalagem e delicias-te. Olhas para o que te rodeia a uma nova luz, a pequena luzita. O frigorífico quase parece um portal para uma nova dimensão, como naqueles livros que lias quando eras puto. "Podias pintar este momento" Pintar? À quanto tempo é que não pegas num pincel mesmo? Último ano da faculdade, talvez... Olhas para o sorvete. Comeste quase tudo sem dar por isso. Ris-te. Um riso e sincero que brota de ti. Saltas da bancada como um puto, arrumas o sorvete no congelador e despedes-te da pequena luz. "Se calhar é melhor voltar para a cama."

Chegas ao quarto e vês dois volmes debaixo dos lençóis. "Estranho..." Abeiras-te da cama e puxas as cobertas do teu lado. Dás contigo, de olhos abertos, lívidos. Estás morto.

Acordas de repente e levantas-te. "Foi só um sonho... foi só um sonho..." Segues para a casa de banho o mais depressa possível. Ali está o espelho e o teu reflexo nele. O cabelo despenteado, o brilho nos olhos, a barba a despontar, o rosto de um adolescente, está lá tudo... "Foi só um sonho" pensas uma última vez...

"Será que há sorvete de limão no frigorífico?"

Lista de Compras

Um apartamento vazio. Prateleiras e armários vazios a cheirar a novo. Um ser patético sozinho a tentar recomeçar. A mobília viria mais tarde. Deixou as malas no que seria um quarto, e dirigiu-se à mesa que já lá morava. Pegou no bloquinho de notas que sempre trazia no bolso da camisa e começou a escrever. Pequenas letras bem desenhadas saltavam da ponta do lápis.

Cinco latas de atum.
Um pacote de esparguete
Uma dúzia de pêssegos meio comidos
Uma dúzia de pêssegos meio por comer
Um pacote de memórias à beira mar
Um conjunto de momentos felizes
Um doce com sabor a Inverno à lareira
Ambientador com cheiro a ti

Um novo eu
Um novo tu
Um novo lugar
Outro tempo

Uma lista de compras, uma lista de desejos impossíveis. Uma lista de coisas. Um pedaço de nada.


(a 1 dos 300)

Bitch... humm perdão, Beach

Hoje fui à praia. (Vejo caras de choque e de admiração no meio de vós)

Passo a explicar: tratam-se de "obrigações familiares". Sabem, aquelas coisas que são contra a nossa a natureza mas que temos de fazer para... ok ok, o motivo pelo o qual temos de o fazer ficou perdido pelo meio das brumas da história. Mas (infelizmente) isso não ivalida o fact de TERMOS de o fazer.

Como devem (ou deviam) saber, eu detesto o conceito de "ir fazer praia" e relacionados. O que não invalida que goste de "praia". Eu gosto de praia, é um local apropriado para se estar a "torrar" (ou a fazer criação de melanomas) ao Sol durante horas e horas a fio, de tomar banhos de Mar de fazer eriçar o pelo, de expor corpos entre o belo e o grotesco.

Só que isso não faz propriamente parte das minhas prioridades actuais. Há coisas bem mais produtivas para fazr no Verão do que o que foi mencionado acima. Como... *deixem passar uns minutos...* expandir o nosso horizonte cultural.

pois.

"Puta que o pariu"

O parco silêncio ocupava as paredes pardacentas. Partira dali à pouco uma prostituta que ninguém parecia conhecer. Parava por lá frequentemente. Todo o prédio sabia quem ela era, mas ninguém mostrava saber. "É uma puta" diriam as más línguas. O principal patriarca do prédio até já tinha escrito uma carta de protesto à associação de protestantes que protestam sobre as prostitutas. Mas faltou-lhe a coragem na perna partida para se mover até ao posto do correio. Pensara pedir a uma empregada do lar de acolhemento, mas não lhe parecia apropriado. Não sabia bem porquê. "Qualquer dia vem dar comigo todo podre a esta casa" pensava o homem senil enquanto se escondia atrás das portadas da varanda.

E então, no dia seguinte, as portas abriram-se de par em par para ver a prostituta passar. Tinha deixado o pequeno fiat punto no parque de estacionamento em frente à pastelaria do prédio. Tudo o que era gente olhava pelo pequeno buraco privado que dava para o pomposo corredor só para ver a prostituta passear as suas longas e poderosas pernas pelos tapetes do corredor. Passo a passo lá avançava pelos andares. Quando chegou ao primeiro frente parou. Olhou por cima do ombro, preparou o corpete e segui marcha.
Na pequena varanda do primeiro frente, o pobre patriarca parecia um pisco excitado, não parava quieto. Agitava-se dum lado para o o outro sem que nem para que. E então, a perna partida durante a partida de ping-pong do bairro, cedeu e o homem caiu.

PAM!

A prostiuta ouviu o estampido quando ia a subir os degraus do primeiro para o segundo andar. Despachou-se a descer, não fosse a polícia aparecer. Parecia um cavalo preparado a preparar-se para saltar. Chegou ao rés do chão e já as pessoas se tinham aglomerado à porta do prédio. Pensava-se que alguém se tinha atirado do primeiro andar.

A prostituta chegou ao pé do seu carro e a primeira coisa que viu foi o pequeno patriarca todo enfiado no pára-brisas do seu fiat punto

"Puta que pariu o velho" pensou a prostituta.


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