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algo

Sei que tenho qualquer coisa para escrever, algo perdido por entre emaranhados irredutíveis de confusão e de nada, ubiquidades aterradoras. Sei que existem fragmentos de frases suspensos por entre fios de poeira e linhas de pensamento cortadas. Existem palavras boiantes numa maré de aversão, num marasmo de modorra... Existe um Eu que gostava de as poder pescar e traduzir, destilar o pedaço de mente num pedaço de papel.
Existisse um mestre que impusesse ordem onde reina o caos, existisse um dono que evacuasse o supérfulo para atender ao necessário... Tenho sangue na mente e pensamentos no corpo, pedaços de nada perdidos por entre ondas de vazio.

Tivesse eu uma mente em branco e um corpo novo descansado...

Navio

Perdido por entre as sombras da desilusão, o minha mente vagueia. Como um navio à deriva à merecê das marés ou sou empurrado para tão longe da costa que perco a vista ao tangível ou sou atirado contra os aguilhões de pedra que povoam o litoral. Entre os marasmos do inconsciente e a agonia da dor, o corpo não descansa, sequioso de um porto de abrigo ou de uma rocha onde se ancorar. E por entre ruas e ondas tenta não sucumbir, não naufragar, não se desfazer em mil pedaços irreconhecíveis, partes que nunca mais seriam um todo.

É nas tempestades que o navio range, nas noites em que os trovões invocam o terror da incerteza mas a Sorte logo traz a luz de relâmpagos para iluminar a mente e despertar a consciência. Mas ainda assim, o vigia teima em fechar os olhos ao perigo e a mente aos avisos.

E então assim ando, derivando, à merecê de vontades alheias...
Por mim estava dias a fio a olhar para ti, ou a ouvir-te, passava o dia contigo perdido na minha cabeça ou perdido eu na tua. Apetece-me ter uma conversa contigo, daquelas em que se diz tudo, daquelas em que se despeja a alma e o coração, daquelas onde se ouve, ri, chora e aprende. Mas ainda assim, tinha medo que tamanha partilha esgotasse assunto e ficássemos só por aqui, então não vamos dizendo nada, por entre piadinhas sem sentido e silêncios não solicitados. Queria um dia que não acabasse, uma hora presa no tempo, onde o medo da despedida chegar não se concretizasse. Mas neste momento, neste preciso momento um trocar de olhares ou um sorriso, qualquer coisa simples bastava. Por muito simples que fosse ao olhar dos restantes para nós estaria carregado de uma infinitude de significados. E porque tenho saudades. Que magoam. Que matam. Que custam tanto a suportar.

E a culpa é senão nossa, porque a cada dia que passa o Amor cresce e eu nada posso fazer. Não que queira fazer, que cresça, que cresça e me assoberbe. Não interessa. Fascinas-me, não te percebo. Toleras um ser como eu (coisa que não se deve afigurar fácil) e ainda me ensinas que o Amor é como uma caixa de lápis de cor, que existem tantas cores e tonalidades que nunca ninguém saberá ver e nomear todas. (E porque afinal de contas se me pedirem eu não sei dizer o que é a nossa relação. Ainda nenhum dos dois percebeu bem ainda nem o que é nem como ou porque surgiu.)

Porque és assim. E porque eu agradeço que o sejas.
E porque te quero entre os braços. E porque para muito breve que esteja nunca estará perto o suficiente

É ter-te.

É em ti que me perco, nos teus olhos cor de mel, é em ti que me desfaço, em relampejos cavalgantes de desejo, é no teu cheiro a floresta que me perco, por entre fragrâncias de ilusões de terras e sonhos que ninguém viu. Foi assim que ficámos, foi assim que nos deixaram, numa união infernal que impede a separação. Espiral doentia que mói, desgastando-nos pouco a pouco, gesto a gesto. Se apenas olhar bastasse, se tocar não fosse rei, se apenas saber-te me enchesse, mas não. A pele clama, o corpo pede, o desejo impera, apenas sentir-te nos acalmará e no entanto, é sentir que nos mata, que nos faz doer. A respiração ofega, o coração palpita, os poros abrem-se, o sorriso rasga-se, tudo por te poder ter nos braços, roçar a pele na tua cara e sentir pequenas pontadas de felicidade no coração. É ter-te aqui que me mata, é saber-te aqui que me salva. Espiral doentia que tanto mata como sara.

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Desconexozinho, mas que importa?
Não, não me esqueci que tenho um blog. ;)

regras pouco claras

Pouco a pouco venho-me mudando, partes e peças desarranjadas em torno de coisas novas para mim. Coisas que gritavam por aparecer, coisas que tão bem tinha escondido por baixo dos enormes tapetes que usava como pele. Sou uma máquina orgânica, tudo trabalha muito bem, tudo cresce para onde deve... Excepto quando não o faz, aliás, como nunca o fez. É suposto sermos nós a ditar para onde crescemos, a delimitar o que queremos e quando o queremos. Quando uma grão de pó se acumula na mais perfeita das engrenagens duma parte do ser humano, ele deixa de evoluir, deixa de poder continuar a crescer essa parte, pelo menos até se resolver a questão do pó. Às vezes só é preciso uma sacudidela ou um empurrãozito para que o pó se solte e nos deixe seguir a vida, outras vezes é preciso mais que abanão ou um terremoto, há vezes em que é preciso todo um realinhamento estrutural. Como um puzzle mal feito mas onde, mesmo assim, as peças encaixam mas não formam a imagem da caixa. Se é trabalhoso com peças, imaginem com pessoas... Quando não é a imagem que está errada mas sim o eu que tão (estúpida) e orgulhosamente proclamamos. O Eu que ninguém vê para além de nós, o Eu pelo qual continuamos a agir quando pensamos, o Eu (estupidamente) racional, aparentemente tão certo e tão correcto... mas enfim, não podíamos estar mais enganados.

E as pessoas vão e vêm, vêem e vão. Certas pelo que vieram, do que viram e de como vão. Algumas lá vão ficando, geralmente as que não viram logo o Eu que adoptamos mas o Eu que somos, os que chamamos de "Amigos" e os que o são mesmo. No final todos ajudam a perceber o que e quem somos.

E esqueçam por momentos agora tudo o que são, passem a não ser nada, a ser Ninguém, sabem o que é que somos todos se o fizermos? Maioritariamente felizes. Não é por acaso que se diz que "Ninguém é feliz", não é uma constatação, é um jogo de palavras, toda a Vida o é mas mesmo sem regras definidas é preciso jogá-lo. Para avançar eu improviso... Há quem se sente e resigne (já o fiz!). São Histórias de Vidas. Mas quem disse que eu é que estava certo? Pois claro, Ninguém.

Gosto de jogos de palavras, o que é que querem? :)

Enfim, viriam agora muitos professores, doutores e sábios dizer que estou errado, que esta ou aquela teoria, que este ou aquele modelo psicológico dizem que não senhor e que como estudante de Psicologia devia ter vergonha por fazer constatações destas. Sabem que mais? Que se fodam os professores, doutores e sábios que mo digam, que se danem as teorias e os modelos. Quando nasceste ninguém apresentou um modelo do teu futuro aos teus pais, ninguém passou horas a contemplar Powerpoints sobre como andar para o aprender, nunca ninguém teve de sequer olhar para lado nenhum para saber como respirar!

Por muito bom que sejam os modelos e as teorias nunca vão poder descrever a riqueza do crescimento, a infinidade de opções e contradições, a complexidade crescente de um gesto ou de um olhar. Eu nem me atrevo a começar a tentar fazê-lo.

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Um tad bit mais comprido do que é costume...Não peço desculpa porque sei que não se importam. (E se se importam carreguem em Ctrl + W).

E desta vez, orgulhosamente assinado.

[Z]

Semi-Obscuridade

Desapareceste na Penumbra como uma sombra exposta a luz. Fugiste-me por entre os dedos, uma memória mal vivida, um tempo mal partilhado, perdido por entre discussões e demonstrações de egoísmo. Houve uma altura em que era capaz de te seguir para qualquer lado, trilhar contigo os caminhos e atalhos do Mundo, descobrir um novo eu a cada passo. Perdermo-nos no horizonte por entre os folhos dos vestidos das ondas, por entre os braços e os abraços das florestas. Abrir lentamente a caixa que trago ao peito. De revelar o mais profundo dos segredos, de apagar o mais negro dos desejos. Pois, hoje não. Caiu-te a máscara, a intensa luz que eu julgava iluminar-me o caminho não passava de um pequeno pirilampo atarracado, sem vontade nem força. Se um dia fui eu que corri atrás de ti, hoje já assim não é. Se me queres, corre. Depressa. Fôlego não me falta.

Volto agora para o lugar que tenho como meu, num qualquer canto à beira luz, num qualquer sítio longe da sombra.

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Gosto de vocês, pessoas que não percebem uma ponta do que por aqui se passa... Se nem eu consigo :)

(A música nova dos OneRepublic é alguma coisa de... wooow)

Vício

Detesto a maneira como me fazes sentir. Bicho amestrado, menino de trela. Enganas-me com canções doces e depois é isto, desprezo e desdém, insulto atrás de insulto, como se de um ser inútil e desprezível eu me tratasse. Enleias-me em melodias traiçoeiras e depois abandonas-me a ressacar por mais. És um vício, um hábito por perder, uma breve satisfação antes de me embrenhar na escuridão que me trazes. A tua presença insulta-me. A tua voz ofende-me. E ainda assim eu caio, como se procurasse uma razão para me sentir mal. Como se fosse pecado sentir-me bem. Errado no mundo. cantigas melosas e palavras odiosas apenas me trazem confusão. Não me ajudam em nada. Peço-te que vás, que me desapareças da frente. Que te cales apenas uma vez, mas que seja de vez. Que te afundes na porcaria que me atiraste, que sufoques nas palavras que proferiste. Afasta-te de mim. Não preciso de ti.

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Amo e odeio as noites (ok, madrugadas) em que me sinto estúpido e mau.
Mas já tinha saudades de escrever assim :)
Vivia acorrentado a uma jaula suja, guardada num canto escuro de uma qualquer cave. Pequeno e felpudo, de pelo sujo e gorduroso. Nos seus olhos morava ódio, no seu corpo morava raiva. Enrolado sobre o seu corpo, o pequeno monstro repousava num leito de dor e medo, enrolado em lençóis de raiva e tristeza. A tudo o que mexia rugia, a tudo o que o tocava mordia. Durante o dia uma besta, de noite uma criança que chorava por um afago. Dia a dia se afastava da vida, hora a hora se afastava do Mundo.

Até que veio o dia.

Vive

Mexe os pés, mexe as mão, agita os braços, levanta-te, estica-te, esperneia-te. Mexe-te. A vida não foi feita para estares afundado na cama, ou aterrado no sofá. Não foi criada para se passar no mesmo sítio a criar camadas adiposas. Corre, salta, raios! Grita, Ri, Sorri, Vive. O Sol brilha e quando não brilhar não interessa, mexe-te na mesma. Sem medos, sem represálias. O que interessa o que os outros dizem de ti? A felicidade é uma coisa para se mostrar sem receios. Não deixes que as invejas alheias te obriguem a fechar a felicidade dentro duma caixa de sapatos e a enfia-la num qualquer canto escuro de ti. A tua vida começa todos os dias quando abres os olhos para enfrentar o novo dia.

És como és. Não deixes de o ser só porque os outros olham de viés para ti. Manda-os todos para o caralho e põe um sorriso. Passa cada segundo que possas com os amigos. Passa todos os segundos contigo próprio.

Aprende a dizer que sim. Mais importante, aprende a dizer que não. Com certeza e veemência.

Agora levanta-te e vai dar uma volta. Está um óptimo dia para se começar de novo. ;)

Apatia

Bate-me o coração num ritmo compassado, num passo mecanizado, como se bater não fosse esforço. A face conserva os traços originais, nem felizes nem tristes, nada que transmita coisa alguma. O corpo, de ombros descaídos, assemelha-se apenas a um amontoado de carne e ossos, coisa sem movimento, sem agilidade. Os olhos enchem-se do vazio que se apresenta. A mente pura e simplesmente não existe, está vazia e apagada.
Indelével Apatia.
Ruísse hoje o mundo e nem por isso dava conta. Surgisse hoje toda a mágoa e não sofreria. Que devasso estado este de completa desatenção. Fraqueza do Corpo, vazio de Alma, incompetência de Espírito.

Dura e leve Apatia.

E...

Clama o Silêncio por mim enquanto me afundo na modorra, enquanto se solta o último suspiro de vontade que em mim habita. Acalma-se na modorra a insurreição que em mim se revolta. Um turbilhaõ que se apazigua e se conforma, um Tornado que adoça. Tornam-se cinzentos os dias, como patéticos clones de nada, como tristes réplicas de uma repetição. Serena o som: os barulhos, os ruídos e as melodias, tudo se mistura. As cores esbatem-se, tornam-se pardacentas e gastas, como papel de parede velho a descolar.

O céu apresenta-se no seu mais enfadonho azul-acinzentado. O sol brilha com pudor. As casas estão vazias, as ruas desertas. As ruas anseiam por Setembro. E tudo não passa de nada. Uma morte anunciada, um renascer programado.

E far-se-á vida. E ter-se-á Vida.

E esperamos.

Resquícios

Procurei-te ontem numa fotografia, numa lembrança mal vivida e não te encontrei. Vasculhei a memória do meu ser para encontrar apenas o vão vazio. Seria eu capaz de me esquecer? Seria a memória capaz de me atraiçoar?

Encontrei-te hoje numa pedra da calçada, enquanto descia a rua. Ouvi-te na gargalhada de alguém, o teu mover, o teu andar, senti-te no perfume da rua, o teu cheiro, o teu sentido. Segui em frente, impulsionado a encontrar-te. Surgiste de um momento para o outro, na melodia que resta depois de um concerto. Os teus olhos sorriram antes ainda de os teus lábios se moverem. Por um segundo estiveste lá. Desapareceste assim que a melodia se evaporou e apenas ecoava o silêncio.

E pergunto-me então, como poderia eu ver alguém que nunca existiu?

Quatro Centos

Escrevi eu 400 posts em quase dois anos? Assim parece, reflexo de uma total falta de coisas para fazer...

Foram 400 posts bem ou mal escritos que nasceram na mente e desaguaram no incessante bater de teclas de um computador.

Foram mais de 400 letras despenhadas nas páginas brancas do blogger...

forma tempos perdidos, foram... nada.

Hoje acordei deprimido.

400 posts. E mais um dia a passar.
São 4:36 e eu estou a pé. Desengane-se o leitor se julga que fui sair. Sair não é comigo, prefiro a companhia de um bom livro. Desengane-se também se julga que estive a estudar. Deveria ter estado a estudar, é facto mas hoje não o fiz. Estou pura e simplesmente a pé. Não é uma daquelas torrentes de escrita que surgem de quando em vez, nem uma preocupação que traga. É apenas insónia. Mas calma, não é uma insónia invasiva, não esperada... É... ponderação, talvez... Soul Searching... Não sei, um qualquer mecanismo será. A cabeça não está nem "a trezentos à hora" nem parada na lua, vai seguindo o seu passo normal, pára para desenrolar os nós, debruça-se sobre os emaranhados e depois segue a sua linha de raciocínio. É como se estivesse a arrumar a sua biblioteca após um furacão lá passar. Procura cuidadosamente cada prateleira, etiqueta cada tomo e vai-se livrando dos que infelizmente não sobreviveram.

Processos, Livros, Memórias, Músicas Perdidas, Histórias, Estórias, Personagens, Fragmentos de Mundos... tudo se vai arrumando, tudo se vai encaixando (ou parecendo encaixar) no seu devido sítio. As pessoas começam a reganhar os traços que eram seus, os lugares começam a alinhar-se numa configuração mais ou menos idêntica à do mapa que anteriormente existia. Mas mais importante, no meio de tanto lixo, de tanto despropósito, as personagens recomeçam a florescer, a palpitarem para serem escritas. Aguardemos que cresçam para depois lhes poder colher o fruto.

Arumaçãozinha feita, estamos falados pelo menos até que por aqui passe outra qualquer manifestação.

São 4:49 e só passaram 13 minutos... E sono ainda está por vir.

o MEU mundo

Encontro na escrita o meu refúgio, o meu porto de abrigo. Encontro no bater das teclas o meu descanso. Perco-me nas linhas, encontro-me nos pontos. Cada letra guarda para mim um mistério, cada palavra uma paisagem. Soubesse eu como as criar, soubesse eu como as conjugar correctamente e talvez conseguisse criar um mundo só para mim, um local feito à minha medida, não muito grande, pequeno em demasia também não. Um mundo só meu, onde me pudesse perder, onde me pudesse finalmente encontrar. Donzelas em apuros, cavaleiros de armadura reluzente... Magos! Magia não poderia faltar. Segredos antigos, Estórias perdidas, Caminhos por atravessar.

Mas esse mundo (ainda) não existe...

Neste Mundo os dias são cinzentos, carregados de uma certa... melancolia? tristeza? hipocrisia? Não o sei, apesar de o saber tão bem. Vagueio um pouco pelas páginas destes mundo tão velho... Vagueio pelas vielas escuras, pelos becos mal iluminados... Mas descansem, porque nem todos os que vagueiam andam perdidos (como diria o tão célebre criador de mundos, Tolkien).
É fodido ouvir-se o que não se quer ouvir. Principalmente quando sabemos que temos de o ouvir. Aquelas coisas acerca de nós que temos a certeza que nunca ninguém vai dizer. Coisas que julgamos pequenas e desprovidas de significado... pelo menos até fazerem o tímpano ressoar e o cérebro processar a mensagem. O pior vem depois. Raiva? Às vezes. Isolamento? Também. Aquela sensaçãozinha de injustiça e de completo desequilíbrio? De certeza que sim.

Pior ainda é quando vem de uma pessoa completamente inesperada. Ou de um amigo. ou de ambos. Não sei, sempre associei estas coisas das verdades a golpes de último recurso... A coisas que usamos para acabar com um adversário. Mas e quando não foi um adversário que o disse?

Talvez seja de mim... Talvez esteja demasiado habituado a um mundo cada vez mais competitivo onde morre o mais fraco. Talvez me falte uma faceta emocional qualquer... Talvez seja demasiado frio, demasiado burro para perceber o que quer que seja sobre mim. Já não sei. Pela primeira vez não me consigo distanciar da situação, não consigo analisar o que se passa. Falta-me a frieza, falta-me o planeamento. Culpo o inesperado.

Abalou-me. Sim. Não tenho qualquer pejo em dizê-lo. Sempre admiti as minhas falhas (ou pelo menos a maior parte delas).

Visto a pele de lobo mau, disseram-me. E que mostro uma cara estranha às pessoas.
Talvez seja verdade. Sempre vivi de máscaras, de fumo e espelhos. O problema é que acho que me perdi no meio de tanta coisa. Deixei de ser eu. Ou então passei a negar-me. A tentar parecer outra coisa qualquer. Perdi o fio à meada que me ligava a mim. E por causa disto tudo perdi o sono...

Mas são coisas destas que nos fazem acordar, quanto mais não seja para a Vida.


(btw, I'm in dire need of a hug...)

A manhã

Desfazem-se nas madrugadas os meus medos, aguçam-se então as vontades do corpo, o sono, a fome e outros mais. Os sentidos inundam-me de informação. Sons, Cheiros, Sabores, Cores... Pequenos fiapos de luz transformados em estrelas, pequenos ruídos ecoam grandes melodias, a mais leve fragrância destilado no mais envolvente dos perfumes, um toque tornado electricidade. Elevam-se os espíritos, largam-se as depressões. A tua vida começa agora.

Choras, ris, cantas, carpes. Já nada importa, tu és TU, por ti próprio. Que se danem os outros e os seus problemas irritantes, que se lixem os TEUS problemas, acabou, já nem queres mais saber.

E de repente és tomado por aquela inspiração. Uma pura torrente de emoção, algo que te reduz a pó, a um largo conjunto de partículas suspensas em ar, sem rumo, sem movimento. E é aí que te apercebes. De tudo. A manhã chegou. E tudo isto não passou de um sonho.

Revelação

Às vezes custa-me abrir a caixa que trago ao peito. De partilhar as glórias e os horrores que lá trago. Às vezes custa-me ser assim. Perdido num corropio sem fim de gentes e lugares. Às vezes a infelicidade ataca, outras vezes a felicidade quase mata. Vivo preso entre dois mundos, sem saber se realmente pertenço a um. Às vezes lá aparece alguma coisa que me puxa mais para um lado ou para o outro, alguma coisa que me cative ou repugne. Sou um bicho esquisito, nem noite nem dia, madrugada talvez... ou nem isso.

Ser desprezível também. Mas isso não me incomoda muito, por muito desprezível que seja há-de haver pior bem mais perto do que julgo. Mas esqueçamos os outros por um segundo, esqueçamos que existem outros, foquemo-nos um pouco mais no fundo do nosso umbigo. Somos zeros andantes, não somos? Vazios ocupados por imensa pretensão. Almejamos mais, desejamos de mais...

Gosto de pensar que existe alguém, pelo menos uma pessoa que um dia se vai lembrar de mim quando eu partir... Ai, se ao menos morrer fosse mais fácil... Desaparecer na corrente do Tempo, deixar apenas de ser. Soubesse eu como o fazer...

Fuga

para ler ao som disto.

Os teus olhos prendem-me como os braços de um gigante. Perco-me nas suas cores de mel e mar, nas façanhas e patranhas que eles escondem. Sei o que ocultam. Dor, sofrimento, amor talvez, desdém de certeza. Pedaços inatingíves de ti, algo que nunca mostraste a ninguém. Coisas que ninguém sabe, ninguém viu. Medos, Monstros, Sonhos... Ilusões e desconfianças. Sim, sei-te como me sei a mim, talvez melhor. Partilhámos mais que o mundo, mais que um ano... Fomos...

Mesmo assim o teu olhar ainda me prende, enleia-me como algas do mar. Só te quero fugir, perder-te de vista, vazar-te os olhos e enterra-los no chão. Ultimatista, bem sei... Já não sou forte como me viste, extraíste-me a vontade, a força... Queimaste os cordões que me prendia a alguma coisa. Substituiste-os por correntes inquebráveis... e deixaste-me assim, agrilhoado a uma parede fria, agarrado a uma existência vã.

Posso já não te reconhecer mas ainda te conheço.

Companhia

Às vezes, no vazio da escuridão só quero alguém que me agarre, que me ampare. Como se sentir um braço sobre mim fizesse os problemas ir embora. Às vezes mesmo sentir o respirar de alguém contra a nossa pele, como se acalmasse o temporal que vive dentro de mim. Às vezes só queria que a minha pele tivesse algo que fazer, um sentir, um arrepiar. Queria que lentamente a solidão de que se preenche o Mundo se fosse desfazendo em farrapos de escuridão e caísse num profundo abismo para não voltar. Às vezes só quero sentir um batimento cardíaco, um compasso regular e estável, algo com o que me orientar... O calor da pele, sei lá... qualquer coisa que me fizesse sentir menos sozinho, um sussurro, algo... Os dias que se vivem são negros. O que os meus olhos vêm é ainda pior.

Preciso de uma mão a que me agarrar.
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