Madrugada. O Sol não quer nascer, o corpo não quer dormir, a mente não descansa. Revolvem-se os lençóis, viram-se as almofadas. Perdem-se segundos inúteis a ajeitar a cabeça. "Hoje já não dormes mais", pensas em vão. Resolves levantar-te. Calças os chinelos e segues até à casa de banho. Chegas à sanita, fazes o que tens a fazer e voltas-te para lavar as mãos. Ainda meio ensonado abres a torneira da água fria. O fresco da água a bater nas mão ainda quentes da cama é uma das coisas que mais detestas. Fazes uma concha com as mãos e levas a água à cara. Sentes a barba a despontar, sentes os dias a passar. Olhas em frente, os teus piores inimigos estão lá: o espelho e o teu reflexo. Notas as pequenas rugas a assomar-se no canto dos olhos, vês as entradas no cabelo a crescer. Olhas-te nos olhos. Não vês ninguém. Nem tu, nem ela, nem eles. Não sentes os olhos brilhar, não sentes o mundo girar. "O que foi que te aconteceu?" Perdeste-te nas malhas da vida. Viste o teu destino esmorecer, viste o teu fulgor perecer. A rotina instalou-se.
Desvias o olhar, não suportas a maneira como te olhas de volta. O barulho dos chinelos nos tapetes do corredor irrita-te. A madrugada irrita-te. Vendo bem, tudo te irrita. A vida irrita-te. Passas pela cozinha. Abres a porta do frigorífico. O frio é mais que bem vindo nesta noite quente. A pequenita luz do frigorífico tenta timidamente iluminar a divisão. Abres o congelador e tiras uma embalagem qualquer. Gelado. Olhas para o rótulo: "Menta". Devolve-lo ao seu lugar e tentas outra vez: "Sorvete de Limão". Bingo. Sentas-te no balcão de mármore e alcanças uma colher de sobremesa no escorredor da louça. Deixas a porta do frigorífico aberta. Abres a embalagem e delicias-te. Olhas para o que te rodeia a uma nova luz, a pequena luzita. O frigorífico quase parece um portal para uma nova dimensão, como naqueles livros que lias quando eras puto. "Podias pintar este momento" Pintar? À quanto tempo é que não pegas num pincel mesmo? Último ano da faculdade, talvez... Olhas para o sorvete. Comeste quase tudo sem dar por isso. Ris-te. Um riso e sincero que brota de ti. Saltas da bancada como um puto, arrumas o sorvete no congelador e despedes-te da pequena luz. "Se calhar é melhor voltar para a cama."
Chegas ao quarto e vês dois volmes debaixo dos lençóis. "Estranho..." Abeiras-te da cama e puxas as cobertas do teu lado. Dás contigo, de olhos abertos, lívidos. Estás morto.
Acordas de repente e levantas-te. "Foi só um sonho... foi só um sonho..." Segues para a casa de banho o mais depressa possível. Ali está o espelho e o teu reflexo nele. O cabelo despenteado, o brilho nos olhos, a barba a despontar, o rosto de um adolescente, está lá tudo... "Foi só um sonho" pensas uma última vez...
"Será que há sorvete de limão no frigorífico?"
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5 Sentenças Alheias:
Só mesmo para dizer que adorei o texto. Gostei da ideia e do grafismo com que a descreveste. Isto dava um guião fixe para uma curta metragem...
buttercup**
Bora? :P
Concordo com o comentário acima, isto numa curta ficava muito bem.
(o meu está assim tão mau para comentários?)
Gostei do post! "Foi só um sonho." Acordo assim tantas vezes... x)
**
Adorei tanto tanto ! melhor que a nokas nao posso dizer. ficava realmente muito bem. está tao bem apanhado, tao original ..! *
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