O caçador ponderava no que deveria fazer. Sabia que a única opção que tinha era a decisão que não queria tomar. O captor aproximava-se cada vez mais da presa. Os grãos de areia escoavam na ampulheta do Tempo. Os dois jovens entravam no carro estacionado do outro lado da estrada, completamente alheios ao jogo de forças que se disputava. O gigante celeste corria em direcção ao mesmo carro, o subtil demónio começou a correr também. Não tinha perdido horas da sua semana para nada, não tinha posto em jogo a sua patente por um fracasso. O manto, que só atrapalhava o caçador, foi despido, atirado para o chão e rapidamente se desfez na sombra. O pequeno amuleto das dezoito pontas repousava agora na mão do caçador, segurava-o com tanta força que pequenos fios de sangue se soltavam do sítio onde a estrela tinha tocado a pele.
O captor apercebia-se agora da concorrência que se aproximava e retirou ele o seu próprio amuleto: um símbolo das mãos de Deus feito em ouro e cravada de rubis. As mãos do gigante celeste apertavam o amuleto com tanta força quanto as mãos do pequeno caçador se agarravam ao seu amuleto.
O alvo apercebeu-se de uma discrepância no ambiente e começou a observar o seu redor. Havia algo nos dois homens que se dirigiam a si que ele não estava a gostar. Pôs a chave na ignição e tentou por o carro a trabalhar.
O caçador e o captor trocaram um olhar. Ambos sabiam que um deles iria desaparecer hoje. O caçador pensava na chatice que era ressuscitar. O captor pensava no aborrecimento que era reencarnar. Mas um deles tinha mesmo que desaparecer hoje, não podiam ficar os dois com a mesma presa. O caçador, entre passos largos e trocas de olhares com o captor, alcançava um pequeno frasco no bolso de trás das calças. O captor interpretou isto como um gesto de ameaça e iniciou o ritual de deslocação. Os objectos deixavam de se mover, a luz e a sombra desfaziam-se em farrapos e soltavam-se do Mundo.
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(Mãos de Deus)
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