Escarlate

A cama está no mesmo sítio. As almofadas foram deixadas como estavam. Os livros entretinham-se desde à muito a apanhar pó. Apenas o chão estava lavado, na esperança que fosse sujo uma vez mais. A televisão foi deixada ligada, tal como Ele a deixou. O comando pousado sobre as cobertas desfeitas. Tudo estava igual. Igual àquele dia fatídico que os vitimaria aos dois.
"Era um desequilibrado", diziam uns. "Era um doido sem consciência", diziam os outros. As opiniões não divergiam muito disto. Ele tinha uma arma, o outro tinha uma também. "Eram amigos", diziam uns. "Eram amantes", diziam os outros. E disto não passava.

Mas no final não eram nem uma coisa nem outra, nem Ele era doido ou desequilibrado. Apenas tinham decidido deixar de viver. E aquele parecia um bom dia para o fazer. O Sol estava no céu, o vento não soprava e sentia-se aquela alegriazinha no Ar, como o Mar a anunciar o Verão. Sim, era sem dúvida um bom dia para morrer. E foi com este pensamento que se levantou da cama. Ligou a televisão no botão e viu o que estava a passar nos noticiários... Nada de Guerras, nada de desastres, como se o Mundo tivesse parado todas as tragédias por um segundo para poder respirar. Sim, era um bom dia para morrer. Limpou o quarto enquanto ouvia a música que passava na rádio. Pegou numa faca e entreteve-se a cortar uma maçã, fruto do desejo, fruto do ensejo. Foi quando o telefone tocou. O seu amigo viria daí a pouco. Usufruiu então da sua última refeição. Tocou a campainha. Levantou-se lentamente, como quem sabe que o fim está próximo e flutuou até à porta. Abriu-a parcimoniosamente, como se o ranger das dobradiças lhe desse prazer. Deixou o seu amigo entrar e dirigiram-se ao quarto. A sala não era um sítio muito agradável para se morrer. Demasiados móveis e coisas, demasiada desarrumação passível de ser causada. Assim que entraram no quarto era certo o que aconteceria... Ou seria?

A faca estava na cama, o rapaz estava de costas para ela, Ele estava a olhar para a virilha do rapaz. Tal volume não era normal e ele sabia-o. Esboçou um gesto lascivo em direcção ao membro viril do companheiro. O rapaz, respondente, colocou a mão na cintura das calças e num instante sacou um revólver para fora e deu um tiro no pescoço d'Ele. Entre o momento do embate com o seu pescoço e a saída do projéctil pelo outro lado passaram exactamente 48 milisegundos.

O Sol brilhava na rua. Os pássaros cantavam e um estrondo dentro de uma casa fazia-se ouvir. Escarlate preenchia as paredes e o chão, era escarlate também o que lhe corria para as mãos. Era um dia bonito, o dia perfeito... mas agora Ele já não sabia se queria morrer. Olhou com os olhos da Morte para o rapaz. A sua inexpressão denunciou o acto seguinte. O revólver rapidamente se voltava para o seu próprio pescoço.

Desta vez, a bala não saiu. Mas o líquido escarlate corria na mesma.

3 Sentenças Alheias:

mel.e.drama disse...

Que saudades de um texto assim !!
'Ai tao grande..' pensei quando cheguei. que os olhos já me custam a pousar em qualquer palavra... mas li parcimoniosamente (que eu degusto intensamente esta palavra) cada momento.

A sério, já me sinto renovada para re-atacar a desgraça de anatomia radiológica.

Estava capaz de te abraçar por teres voltado a isto. Todo.

:)

M disse...

("pretty in scarlet")

ah ah ah


dizes tu que isto é "uma bela merda"... ceeertoo... "/festinha no Zé"

M disse...

olhai! gosto do teu "Apetece-me Morrer"... do tipo de letra... faz lembrar "Arrepios".

:p

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