Halakari, a jovem dançarina

As mãos da jovem moviam-se como o vento do deserto: rápidas, subtis, fatais. As curvas bem delineadas ondeavam ritmicamente ao som da música. A pele morena do Sol refulgia em contraste com o ouro que lhe pendia do pescoço. As sedas das vestes tapavam-lhe a cara e destacavam-lhe os olhos verdes. A dança intrincada que fazia era de pôr qualquer homem louco de desejo, de fazer qualquer mulher ácida de inveja. Dançara para sultões, dançara para os homens poderosos do Império. E não fizera só isso por eles.
Voava por entre os povos do deserto o rumor que Halakari, a deusa da destruição tinha encarnado no corpo de uma fêmea humana. Mas se os Deuses existiam ou se encarnavam pessoas isso era coisa que ninguém sabia ao certo, mas a jovem continuava a dançar.
O povo que a via dançar rapidamente se atirava aos seus pés ou se lançava ao mar. Diziam que incutia o terror nos olhos dos infiéis, que propagava a destruição no corpo dos pecadores ou então que os seus pés traziam a bonança a terras de crentes. Muitas eram as lendas que se criavam em redor da jovem. E ela continuava a dançar.
A sua fama rapidamente se espalhou ao continente da nova fé, a fé da divindade una, traiçoeira e misericordiosa. Muitos foram os sacerdotes que a quiseram exorcizar, muitos eram os que a queriam sangrar. A jovem não parou de dançar.

Um dia, o líder dos sacerdotes chamou a mulher à sua presença. A jovem dançou para ele. O velho homem olhou para ela durante todo o tempo. O desejo ardia fortemente, a loucura pulsava dentro dele. A jovem não parava de dançar. Um movimento subtil da velha mão do homem deu a ordem fatal. milhares de setas era disparadas na direcção da jovem. E a jovem continuou a dançar. Continuou a dançar até a primeira seta lhe tocar, então o seu corpo tornou-se areia enleada no vento do deserto e tudo o que restou foi a seda e o ouro... E uma porção de areia que se plantou aos pés do sacerdote. Quando este se levantou para a pisar e lhe cuspir em cima, um fogo místico ergeu-se da seda e engoliu o homem. E tudo o que restou foram pequenos grãos de areia e leves flocos de cinza... E a nova fé não existiu mais.

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